9. TECNOLOGIA E MEIO AMBIENTE 18.9.13

1. SEM JOBS, APPLE FICA MAIS PARECIDA COM A CONCORRNCIA
2. O SEGREDO DOS 35 BOTOS

1. SEM JOBS, APPLE FICA MAIS PARECIDA COM A CONCORRNCIA
Celulares lanados nesta semana mostram que, sem o seu guru, a empresa deixa de surpreender e aposta na massificao de seus produtos
Juliana Tiraboschi

Toda vez que a Apple est prestes a lanar um produto, o roteiro se repete: rumores sobre os aparelhos pipocam na mdia e os fs mais fervorosos j montam acampamento em frente s lojas. De trs anos para c, a nica mudana na trama  o final da histria. Terminado o anncio, consumidores e analistas quase sempre se queixam de que o novo gadget  apenas uma atualizao da verso anterior. A ltima ocasio em que a empresa apresentou um daqueles irresistveis geradores de necessidades foi em 2010, com o tablet iPad, que inaugurou uma nova categoria de produtos-desejo. No ano seguinte, Steve Jobs morreu. Levou consigo o carisma para transformar apresentaes de gadgets em eventos messinicos. Pior: deixou uma empresa que liderava os avanos tecnolgicos e que, trs anos depois, corre atrs da concorrncia.

MAIS DO MESMO - O executivo de marketing da Apple apresenta o iPhone "popular": sem novidades

Nesta semana, o roteiro se repetiu. A Apple anunciou o iPhone 5S e uma verso mais simples e barata do smartphone, o 5C. O 5S traz como quase solitria inovao um sistema de reconhecimento de digitais, dispensando as senhas para desbloqueio de tela e para compras na loja de aplicativos da empresa. Em suas apresentaes, Jobs tornou clebre a expresso And there is one more thing (e tem mais uma coisa). Utilizou-a para mostrar inovaes como o toque na tela, a facilidade de navegao na internet e a possibilidade de fazer chamadas com vdeo. No lanamento do 5S, essas coisas a mais so bem mais modestas e se restringem a melhoras no que j existe, como cmera com mais resoluo e processador mais veloz.

Uma atitude impensvel na Apple de pouco tempo atrs seria lanar um produto popular. A empresa sempre zelou para ter o adjetivo cool (bacana) associado a seus gadgets. Com o lanamento do 5C, a regra foi esquecida. A misso do aparelho  concorrer com os smartphones mais acessveis em mercados emergentes. Tem as mesmas configuraes internas do iPhone 5, mas com um acabamento menos sofisticado, feito de policarbonato (plstico). Custar entre US$ 99 (16 GB) e US$ 199 (32 GB), nos EUA. Ainda no se sabe com qual preo os aparelhos chegaro ao Brasil.

Para especialistas, a empresa precisa recuperar o tino inovador. Enquanto a Apple faz um lanamento burocrtico, a Samsung investe pesado em smartphones que leem o movimento dos olhos e em seu relgio inteligente e a Microsoft se junta  Nokia para lanar aparelhos mais integrados ao sistema operacional, afirma Pedro Waengertner, coordenador de ncleo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em So Paulo. Segundo o colombiano Milton Pedraza, presidente da consultoria Luxury Institute, baseada nos EUA, a Apple consegue fazer melhor do que o iPhone 5S: Ela poderia oferecer opes de customizao de acabamento e de configuraes internas, designs exclusivos, novas funcionalidades e melhor atendimento.

Alm de inovar pouco, a empresa no termina o trabalho de seu guru. Entre os projetos que estariam nas pranchetas da empresa desde a era Jobs esto uma tev e o relgio inteligente iWatch. Especialistas do um desconto, defendendo a ideia de que os ciclos de criao so demorados. Mas so demorados tambm para a Samsung, que lanou seu relgio inteligente primeiro. Apesar de danificar a imagem cool da empresa, o lanamento de um celular mais barato no seria suficiente para arranhar o status da Apple. Mas, se eles popularizarem mais do que isso, a imagem pode ser afetada, diz Pedraza. O consultor aposta no sucesso do smartphone no Brasil. Segundo ele, os consumidores de classe mdia que possuem celulares mais baratos vo querer um iPhone 5C.  um jeito de exibir a marca fetiche sem machucar tanto os bolsos. Os celulares aterrissam em 20 de setembro nas lojas dos EUA e de alguns outros pases. No h previso de chegada ao Brasil.


2. O SEGREDO DOS 35 BOTOS
Com inteligncia e capacidade de identificar objetos perigosos, animais que sobrevivem na Baa de Guanabara indicam um caminho para evitar a extino da espcie no Estado
Wilson Aquino

O braso da cidade do Rio de Janeiro, criado em 1896, tem como suporte dois botos-cinza. Naquela poca, eles eram milhares e nadavam livremente por todos os 328 quilmetros quadrados da Baa de Guanabara, no Rio. Hoje, so apenas 35 bravos heris que impressionam pela capacidade de resistncia s condies adversas do ambiente, cientificamente comprovado como o mais degradado de todos os usados como residncia por essa espcie, segundo o biofsico Jos Lailson Brito Jnior, da Uerj, Universidade do Rio de Janeiro.

Desde 1995, o Departamento de Oceanografia da universidade mantm o Projeto Maqua, que estuda a populao de botos por meio de foto-identificao das nadadeiras, que funcionam como uma espcie de impresso digital de cada indivduo. Com idade entre 5 e 18 anos, os animais que restam na baa desenvolveram e adaptaram estratgias de sobrevivncia. Uma delas  a ecolocalizao. Aperfeioaram-se tanto que so capazes de detectar com preciso at a textura dos objetos. Emitem sinais e captam o eco, que traz informaes sobre o ambiente e as coisas ao redor, afirma o oceangrafo Alexandre Azevedo.

A inteligncia desse tipo de animal tambm colabora com a sua sobrevivncia. O supercrebro desse mamfero reconhece os locais, sabe onde esto os perigos e isso permite que sobreviva em ambiente impactado, diz Brito Jnior, coordenador do Laboratrio de Mamferos Aquticos e Bioindicadores da UERJ. Espertos, eles se refugiaram na rea menos poluda da baa, os 20 quilmetros quadrados da Estao Ecolgica (Esec) da Guanabara, um lugar de preservao sem lixo, leo, redes de pesca e que no permite a entrada de seres humanos, a no ser para fins cientficos.

SOLIDO - nico mamfero nas guas da Baa de Guanabara, o boto j teve a companhia de golfinhos e baleias

Porm, como no h nenhuma barreira que impea a sada deles da reserva, de vez em quando algum boto curioso atravessa os limites e acaba no resistindo. Alm dessas escapadas, os pesquisadores associam as mortes mais recentes  poluio sonora. Cientificamente no est comprovado, mas h fortes indcios de que o excesso de barulho impede o golfinho de captar as redes dos pescadores, diz Azevedo, salientando que a maior causa de mortalidade de golfinhos no mundo  a captura acidental. Elegemos o boto-cinza entre as dez espcies mais ameaadas de extino do Estado do Rio justamente para reverter esse declnio populacional, diz a biloga Alba Simon, diretora de biodiversidade da Secretaria de Estado do Ambiente (SEA).

Medidas como essa tentam evitar que os botos tenham o mesmo fim de outros mamferos. Golfinhos e baleias tambm se banhavam na Baa de Guanabara antes das ondas de poluio. Hoje, o boto-cinza  o nico mamfero que consegue sobreviver ali. E no  por opo. Uma das caractersticas do animal  a fidelidade territorial, geralmente passando a vida toda no mesmo local onde nascem. Assim, s com um trabalho de despoluio a regio poderia ter nmeros como os da Baa de Sepetiba, onde at dois mil indivduos da espcie se reproduzem. Que a exceo representada por esses 35 indivduos vire a regra.

